Fri12192014

Última atualização:06:18:05 PM GMT

Back Artigos Artigos Presbíteros Ambiente de destinatários (do Evangelho de Marcos)

Ambiente de destinatários (do Evangelho de Marcos)

A maioria dos estudiosos admite que o Evangelho de Marcos foi escrito quase certamente em Roma por volta de 65 d.C.

Todavia alguns tendem a escolher uma data mais tardia, porém antes da queda de Jerusalém (70 d.C.), e outros uma data anterior, em torno de 60 d.C. Alguns autores, contudo, designam a Galileia, ou pelo menos a Síria do Sul, como lugar onde teria sido produzido esse Evangelho, considerado hoje o mais antigo. Outros, ainda, indicam a Decápole. Mas a tradição antiga, que remonta a Clemente de Alexandria, dá respaldo à hipótese que Marcos escreveu possivelmente depois da morte de Pedro, mas antes da queda de Jerusalém (portanto entre 64-70), e que seus destinatários deviam ser pessoas de origem pagã, provavelmente os romanos (ou, talvez, os habitantes da Decápole).

Pelos indícios do próprio evangelho, a comunidade de Marcos aparenta ser uma comunidade de cristãos vindo do paganismo, pois o autor tem necessidade de traduzir as palavras aramaicas, que ainda faziam ressoar a pregação dos apóstolos, por exemplo, Boanerges ("filhos do trovão", 3,17); Talítha kúmi ("Menina, eu te digo, levanta-te", 5,41); corban (oferenda), Ephphatha ("Abre-te", 7,11.34); Gólgota (Caveira), Eloi, Eloi, lamá sabachtháni, ("Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?", 15,22.34). Compreende-se então por que ele tem que explicar também certos costumes dos judeus, como: as abluções antes das refeições e a purificação de objetos (7,3-4); o significado da Festa dos Ázimos (14,12), da Paraskeve, Preparação do Sábado ou da Festa (15,42). Poderíamos, então, pensar na comunidade de Roma, mesmo porque, além de tudo isso, ele faz a transcrição de algumas palavras latinas em letras gregas: leghion ("legião", 5,9.15; cf. Lc 8,30), kensos ("tributo", 12,14), denarion ("dinheiro", 12,15). O fato que alguns desses termos se encontram também nos outros evangelhos (veja Mt 17,25; 18,28; 20,9.10; 22,17.19; 26,53; Lc 7,41; 10,35; 20,24; Jo 6,7; 12,5) é sinal de que eram bastante comuns no Império e que Mateus e Lucas seguiram Marcos. Ele ressalta a importância da evangelização aos pagãos e coloca na boca de um centurião romano, aos pés da cruz, uma belíssima profissão de fé.

Percebe-se também que seus destinatários deviam fazer parte de uma comunidade ameaçada pela perseguição, obrigada a fazer uma escolha arriscada por sua fé. Uma comunidade que poderia muito bem ser a de Roma durante a perseguição de Nero (64 d.C.). Uma comunidade verdadeiramente "dispersa no meio das nações" (1Pd 5,13). Os argumentos não são irrefutáveis, mas vêm fortalecer a opinião da Tradição.

Eis como um estudioso do Evangelho de Marcos descreve a difícil situação política do Império Romano nessa época e como ela afetava profundamente a vida das comunidades cristãs:

"Nos anos 60 e 70, Palestina e Roma passam por sérias crises. Na Palestina crescia incessantemente a tensão entre o invasor romano e os movimentos insurrecionais, por vezes chamados "galileus" (ver também Lc 13,1; At 5,37). Irrompe a guerra judaica em 66. Torna-se necessária a intervenção de Vespasiano e de Tito para que a Galileia seja pacificada em 67. Segundo o que tudo indica, a comunidade de Jerusalém fugiu para Pela. Jerusalém cai em 70. Em Roma, Nero é o imperador desde 54. A economia e o comércio estavam em vias de modificar o equilíbrio social em benefício dos cavaleiros e sobretudo dos libertos. Os senadores inclinam-se a ocupar posição mais "dirigente" do que "dominante".

Dois acontecimentos marcam o ano 64: a desvalorização do denário e o incêndio de Roma. Após a morte de Nero estoura a guerra civil (junho 68-dezembro 69). É quando proclamam Vespasiano imperador (69-79). A comunidade cristã sofre os efeitos destas perturbações, ora do lado dos judeus, ora do lado dos romanos... Por ocasião da vacância no poder romano, em 62, Tiago, o irmão de Jesus, é executado. Simeão o substitui na chefia da Igreja de Jerusalém. Em Roma, entre 64 e 67, dá-se o martírio de Pedro e de Paulo. O Evangelho de Marcos conserva vestígios destes acontecimentos. Testemunha a reação da comunidade cristã à conjuntura do momento: o capítulo 13, que se apresenta talvez como um pequeno apocalipse, mostrando Calígula com as características do Adversário, faz-se eco deste período tenso. Num clima de crise política e de confusão cósmica, convida os cristãos à vigilância na certeza da vinda do Filho do Homem (ver especialmente 13,24-27). O Reino de Deus pode chegar dentro de breve espaço de tempo (cf. 9,1). E ainda é preciso acautelar-se para não seguir ilegítimos pretendentes messiânicos que não hesitavam em se apresentar naquele período conturbado. Que um evangelho tenha nascido nessas circunstâncias, não é de admirar. O desaparecimento progressivo dos primeiros companheiros de Jesus leva a consignar com maior rigor o testemunho apostólico.

Um grupo que atravessa uma crise profunda volta, com maior naturalidade, às suas origens, neste caso, ao ministério de Jesus, ao começo do evangelho" (Auneau J., em VV.AA, Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos, EP, São Paulo, 1986, p. 87-88.).

Isso explica por que para Marcos é tão importante o termo euanghelion (evangelho) e seu conteúdo (o termo aparece 76 vezes no Novo Testamento, 60 das quais só nas cartas paulinas, seguindo-se Marcos, que o usa oito vezes, mas não consta em Lucas e João). O evangelista impele o catecúmeno que quer ouvir a Boa Nova, assim como qualquer leitor, inclusive todos nós ainda hoje, a fazer uma opção de vida no seguimento de Jesus para chegar a contemplar no crucificado, pela fé, a glória do Filho de Deus e proclamar: "Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!"


Pe. Giovanni Martoccia - Belém do Pará
Formado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém e professor de Sagradas Escrituras no Instituto Regional para a Formação Presbiteral (IRFP) do Regional Norte 2 da CNBB.

AddThis Social Bookmark Button